Toda vez que uma tecnologia nova ganha tração, surgem dois grupos. O primeiro diz que vai mudar tudo e que ninguém vai ter emprego. O segundo diz que é hype e que redes são redes desde sempre.
Os dois estão errados.
O que já está em produção hoje
Não estou falando de futuro. Cisco AI Network Analytics está em uso em ambientes enterprise hoje. Juniper Mist usa IA para troubleshooting de Wi-Fi em produção desde 2018. Plataformas de AIOps correlacionam eventos de rede, identificam causa raiz e abrem chamados automaticamente.
Isso não é roadmap. Está rodando.
A pergunta certa não é "IA vai chegar em redes?". Ela já chegou. A pergunta é o que isso muda para quem trabalha na área.
Quem vai sentir primeiro
Não é o engenheiro sênior. É o analista de NOC que abre ticket, segue script e escala para o nível acima.
Correlacionar alarmes, identificar que aquele evento às 3h da manhã é o mesmo padrão de duas semanas atrás, abrir chamado com o contexto certo. Isso é o que ferramentas de AIOps já fazem. Não perfeitamente, mas bem o suficiente para reduzir headcount em operações de Nível 1.
Fato é que o trabalho repetitivo e baseado em procedimento é o que vai ser absorvido mais rápido. Sempre foi assim com automação. IA não é diferente nesse ponto.
Por que o fundamento importa mais agora, não menos
Aqui está o ponto que a maioria ignora.
A ferramenta de IA vai sugerir uma solução. Vai recomendar uma mudança de configuração, apontar uma causa raiz, propor um ajuste de rota. E às vezes vai estar errada.
Você só sabe que ela está errada se entende redes de verdade.
O engenheiro que passou anos estudando por cima, que tirou a certificação decorando comandos e nunca entendeu o que estava fazendo, não tem como validar o output da ferramenta. Vai aceitar o que aparece na tela. E quando a IA errar, o ambiente vai junto.
O engenheiro que entende o protocolo, que sabe por que o spanning tree está convergindo daquele jeito, que consegue ler uma tabela de roteamento e identificar o que não faz sentido. Esse vai usar IA para trabalhar mais rápido e com menos retrabalho. E vai ser o único que consegue pegar o erro antes de virar incidente.
O fundamento não é obstáculo para trabalhar com IA. É pré-requisito.
A nova habilidade
Durante anos, o trabalho técnico em redes foi executar bem. Configurar, monitorar, resolver.
Daí veio automação e o trabalho passou a ser também orquestrar. Não só fazer, mas fazer escalar.
Agora o trabalho está passando a ser validar. Receber o output de um sistema inteligente, interpretar o que ele está dizendo e decidir se faz sentido dado o contexto do ambiente.
Essa habilidade não é ensinada em nenhuma certificação ainda. O CCNA v2.0 vai começar a tocar no assunto em fevereiro de 2027. Mas na prática, o profissional que desenvolve isso antes vai ter vantagem real.
O que o engenheiro inteligente faz hoje
Não entra em pânico. Não ignora.
Aprende a operar com as ferramentas que já existem. Entende o que Cisco AI Analytics está mostrando no dashboard. Sabe ler o que o Mist está correlacionando. Quando a empresa começa a avaliar uma plataforma de AIOps, é a pessoa que consegue avaliar o que a ferramenta faz de verdade versus o que o vendedor promete.
E mantém o fundamento afiado. Porque é o fundamento que dá capacidade de questionar.
Onde isso vai chegar
Minha leitura: em cinco anos, a linha entre engenheiro de redes e engenheiro de automação vai continuar diluindo. O profissional que se especializar em só uma coisa vai ter menos espaço.
Quem vai estar bem posicionado é quem entende a infraestrutura, consegue automatizar e sabe trabalhar com ferramentas de IA sem depender delas cegamente.
Não é um perfil fácil de construir. Mas nunca foi fácil ser bom nessa área.